Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Achados no baú (12)

 

Entre prosas, umas curtas, outras mais longas, que vou encontrando nesse baú electrónico que é o disco rígido do computador, algumas há que nasceram com o vão intuito de deixar pistas para uma discussão que, se calhar, nem sequer há dez anos havia já pachorra para fazer.

              Esta nasceu na sequência de um concerto realizado, de facto, há uma década, num outro Jazz em Agosto, e que, na altura, particularmente me impressionou.

                                                                                              


Para um novo entendimento do jazz (1)


O concerto realizado no Acarte  [Agosto, 1998]  pelo Herbie Nichols Project  tem todas as condições para constituir  (constituirá?)  oportuníssimo ponto de partida para uma discussão que ultrapasse o carácter de mera recensão crítica que forçosamente delimita textos como o presente e que começa a ser inadiável encetar com maior profundidade acerca dos caminhos actuais e futuros do jazz, conhecidos que são determinados sinais de crise que não deixam de provocar certos sintomas de perplexidade nos amadores mais inquietos e inconformados.

                                                                                    

Sabe-se a origem deste projecto. Um grupo de músicos, quase todos membros do Jazz Composer’s Colective, associação que se dedica à investigação teórica e prática do Jazz, decidiram dedicar-se a um estudo profundo da obra de Herbie Nichols (nas fotos) –  personalidade injustamente secundarizada na cena musical do seu tempo –  a partir da recolha de material existente em instituições públicas, como a Biblioteca do Congresso dos EUA, ou na relativamente parca obra gravada que aquele pianista e compositor nos deixou.

                                                                         

                                                                         

 

Os resultados deste trabalho constituíram o principal centro de interesse do concerto que o grupo agora realizou neste Jazz em Agosto. Um concerto que não deixou de pessoalmente me suscitar, na prolongada e complexa digestão dos seus resultados práticos, um intenso confronto com a sensação de relativo “mistério” que informou e enformou a produção musical concreta e, sobretudo, veio mais uma vez ensinar-nos que, também aqui, se revela desajustada a frustrante insistência em certos critérios preconcebidos de abordagem crítica.

                                                                                                 

 

Por exemplo, face à música ouvida, acaba por ser inútil, neste preciso contexto, interrogarmo-nos sobre o aparente desfasamento de alguns músicos em relação aos mais reconhecíveis pressupostos jazzísticos que não deixam de condicionar a postura analítica do receptor.


Só assim se explica esta nova abordagem  (dir-se-ia tendencialmente “erudita”)  de um dado repertório preexistente e das novas coordenadas para a sua recriação;

ou porque razão tal ou tal músico, depois de momentos em que swinga intensamente, se descompõe do ponto de vista sonoro e se arrebata em termos de improvisação, outras vezes parecendo passar inexplicavelmente a submeter-se à partitura ou a tocar «quadrado»;

ou porque motivo são por momentos abandonadas a articulação e a expressão tímbrica, naturalmente identificáveis com o jazz, e se descamba num outro intrigante território musical que aparentemente lhe é alheio.

              

              

 

Julgo, assim, ser imperativo começarmos a perceber que, a exemplo de outras experiências muito diversificadas de músicos como Uri Caine, Dave Douglas ou John Zorn  (para apenas citar os que mais rapidamente me ocorrem), estamos com este Herbie Nichols Project  perante mais um exemplo da multiplicidade de abordagens, totalmente novas, que hoje começam a surgir no jazz, enquanto linguagem musical que se pretende em permanente construção e aberta a outras aventuras, eliminando fronteiras artificiais e, sobretudo, continuando a recusar os guetos impostos do exterior ou inadvertidamente criados na nossa própria mente.


Eis, talvez, uma discussão a prosseguir.

_________________________________


(1)  in Diário de Notícias, 10.08.98


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 09:57
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